Astrónomos estão a preparar-se para a possibilidade de testemunhar aquele que poderá ser o evento de impacto lunar mais energético alguma vez observado pela humanidade. O cenário envolve o asteroide ‘2024 YR4’, cuja trajetória indica uma probabilidade de cerca de 4,3% de colisão com a Lua a 22 de dezembro de 2032, segundo estimativas recentes da NASA citadas pela ‘IFL Science’.
O asteroide foi detetado a 27 de dezembro de 2024 pelo telescópio ATLAS, no Chile. As primeiras observações apontavam para uma probabilidade reduzida, mas não negligenciável, de impacto com a Terra, que chegou a atingir 3,1%, levando o objeto a ser classificado, na altura, como o mais perigoso desde o início dos registos modernos. Observações subsequentes afastaram praticamente por completo o risco para o planeta, mas revelaram uma aproximação crescente à órbita lunar.
A Lua como novo alvo provável
De acordo com o cientista planetário Andrew Rivkin, da Universidade Johns Hopkins, a melhoria nos cálculos orbitais levou a que o risco deixasse de estar associado à Terra e passasse a concentrar-se na Lua. “A probabilidade de um impacto na Lua sempre existiu. Era menor porque a Terra era um alvo maior”, explicou o investigador à ‘IFL Science’, acrescentando que, apesar de as probabilidades continuarem baixas, um impacto seria “realmente espetacular”.
Energia comparável a milhões de toneladas de TNT
Um artigo científico ainda não revisto por pares estima que um impacto do ‘2024 YR4’ libertaria uma energia equivalente a cerca de 6,5 megatoneladas de TNT, criando uma cratera com aproximadamente um quilómetro de diâmetro na superfície lunar. Segundo os autores, seria o impacto lunar mais energético alguma vez registado na história da humanidade.
Para comparação, os sismómetros deixados na Lua durante o programa Apollo detetaram impactos equivalentes a cerca de um quilotonelada de TNT. Um asteroide com as dimensões do ‘2024 YR4’ produziria, segundo os investigadores, sinais sísmicos facilmente detetáveis em toda a Lua.
Detritos lunares e riscos para satélites
Um impacto desta magnitude poderia ejetar entre 10⁷ e 10⁸ quilogramas de material lunar, parte do qual poderia atingir a velocidade de escape da Lua, estimada em cerca de 8.552 km/h. Esses detritos poderiam povoar temporariamente o espaço entre a Terra e a Lua, representando um risco potencial para satélites em órbita terrestre.
O material que eventualmente atingisse a Terra cairia em várias latitudes, incluindo regiões como a Antártida, considerada um local privilegiado para a recuperação de meteoritos. Ainda assim, os investigadores sublinham que o impacto não representaria um risco direto para a população terrestre.
Um espetáculo visível da Terra
Caso a colisão ocorra, os cientistas estimam que seria possível observar um clarão ótico com magnitude visual entre -2,5 e -3 durante vários minutos, seguido de horas de brilho infravermelho à medida que a rocha fundida arrefece. O impacto geraria ainda uma reverberação sísmica global na Lua, com magnitude aproximada de 5, potencialmente detetável por sismógrafos modernos.
A data prevista coincide com uma fase lunar minguante gibosa, com cerca de 70% de iluminação. Segundo os cálculos geométricos, a zona de impacto seria visível a partir de grande parte do hemisfério do Pacífico, com condições particularmente favoráveis para observatórios como os de Mauna Kea, no Havai.
Uma oportunidade única para a ciência lunar
Apesar dos riscos associados aos detritos, os investigadores sublinham que o evento poderia representar uma oportunidade científica rara. O ano seguinte ao impacto permitiria observar dezenas ou centenas de fragmentos lunares ejetados, muitos dos quais permaneceriam gravitacionalmente ligados à Terra, com baixas velocidades relativas.
Segundo os autores, estes fragmentos poderiam ser usados para testar tecnologias de defesa planetária, estratégias de captura de objetos espaciais e futuras missões de recolha e armazenamento de material lunar.
Embora a probabilidade de colisão permaneça baixa, os cientistas defendem que, se ocorrer, o impacto do 2024 YR4 proporcionará uma oportunidade sem precedentes para observar, em tempo real, a interação entre impactos cósmicos, geologia lunar e o ambiente espacial próximo da Terra, conclui a ‘IFL Science’.
O estudo foi divulgado no servidor de pré-publicações científicas ‘arXiv’ e ainda não foi sujeito a revisão por pares.






